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“A história em particular tem a tarefa iluminadora e excitante
de ensinar-nos a compreender a ordem existente das coisas e
mostrar-nos como certas instituições ultrapassadas ou costumes que
agora aparecem completamente irracionais, foram algumas
vezes justificados em diferentes condições”.
Knut Wicksell (1904)

Caso 1 – A retomada da fábrica

Relato:

Os cooperativistas Almir, Adail, Piero e Hélio, os quatro “gravetos”, (como passaram a ser chamados numa alusão aos pequenos galhos que não são suficientes para mover grandes obstáculos) nunca se conformaram com o fato da CCLB perder o parque industrial. Cada um deles dirigia uma cooperativa filiada à Cooperativa Central e sofriam à medida que o comodatário que passou a gerir a indústria não cumpria o prometido. O que seria uma solução, transformava-se em um grande problema, ainda maior que o anterior. Era preciso fazer alguma coisa.

Os gravetos então contrataram, um advogado, o Doutor Pires, que não se intimidou com a complexidade da questão e partiram para a retomada do parque, enfrentando óbices das mais variadas naturezas, desde a impossibilidade de pagar os honorários advocatícios, até a resistência às manobras, umas estritamente jurídicas, outras nem tanto, do comodatário. Em agosto de 1998, a CCLB voltava a funcionar sob o comando de seus verdadeiros donos: os produtores de leite. A precariedade era total. As atividades se resumiam no início à prestação de serviço de “secagem de leite”,
ou seja, a CCLB recebia o leite fluido de terceiros, produzia o leite em pó e cobrava uma taxa específica referente à secagem e embalagem. Os empregados foram convocados a retornar ao trabalho, mas o que se formou foi um mutirão onde todos faziam tudo. Hélio, um dos “gravetos”, infelizmente, não chegou a assistir a vitória de sua luta, pois faleceu um mês antes.

Nessa retomada, o especialista em cooperativismo e em gestão empresarial, João Salvador, ao aposentar-se do Banco do Brasil, colocou-se à disposição para levantar recursos financeiros do Programa de Revitalização das Cooperativas de Produção Agropecuária (RECOOP) ora em preparação, capazes de viabilizar essa retomada, uma vez que o montante dos débitos era assustador. Basta dizer, que o total do débito era pelo menos duas vezes maior do que o ativo. Logo, o patrimônio líquido da cooperativa era negativo.

No início de 1999, a EBAL passou a adquirir o leite em pó produzido pela CCLB, o leite Catuí. Assim, iniciava-se uma duradoura parceria na qual, a preços de mercado, a CCLB obteve uma garantia de venda de seus produtos, gerando uma mínima sustentabilidade e regularidade ao seu processo de reativação.

Em 2000, os fornecedores de leite, carreteiros (intermediários que coletam o leite nas fazendas para entrega-lo nas usinas) e produtores, gradativamente voltavam a operar com a CCLB. Mobilizar matéria-prima e outros insumos, produzir laticínios e distribuí-los no ávido mercado estadual, afigurava-se como uma tarefa cuja realização a CCLB demonstrava um desempenho satisfatório.

Enquanto isso, a pecuária leiteira começou a ser valorizada a partir da mudança da política econômica no início de 1999. O câmbio tornou-se flutuante e a desvalorização do real encareceu as importações. E ainda, a CNA pressionou e conseguiu que o Governo Federal dificultasse as importações de laticínios, de países que dispunham de subsídios e/ou utilizavam o “dumping”.(operação
caracterizada pela venda abaixo do custo de produção)

As perspectivas para o futuro eram as melhores possíveis e a necessidade de planejá-lo soava como um óbvio consenso. Então, elaborou-se o planejamento estratégico para curiosidade de alguns, resistência de outros e otimismo geral.

Comentário técnico: a integração da cadeia produtiva e defesa do produtor

Vale a pena identificar os motivos que levaram os quatro empresários cooperativistas a uma empreitada tão temerária: sensibilidade social? Atração exercida pelo desafio de participar da reconstrução de um empreendimento fruto da organização de pequenos produtores? Ou seria por acaso, o compromisso ideológico e ético com o cooperativismo?

É desafiador tocar uma empresa com dupla finalidade – econômica e social. Reativar um empreendimento com essa natureza já seria, certamente, uma forte razão para movê-los. A cooperativa inclui os excluídos e os rejeitados pelas demais empresas. Os associados-fornecedores, pequenos e distantes da usina, que apresentam altos custos de captação, encontram na cooperativa a alternativa que lhes garante condições para continuar operando no mercado.

De fato, o aumento das desigualdades sócio-econômicas, em decorrência do avanço da globalização, inevitavelmente faz surgir maiores espaços para organizações que podem reduzir os efeitos perversos desse processo.

As cooperativas agroindustriais, por exemplo, são formas que valorizam e integram a produção, a indústria e a distribuição e, ainda, por outro lado, congregam segmentos pouco avançados da pecuária com segmentos desenvolvidos da indústria, que precisam adotar tecnologia de ponta para competir.

A propósito disso, Ferrer (2003 citado por FURTADO, 2003) afirma que “a globalização não elimina os fundamentos endógenos do desenvolvimento, mais do que isto, multiplica os desafios e oportunidades que a existência dessa ordem global apresenta”, mormente quando, “para mobilizar a criatividade de uma sociedade é preciso a existência de relações sociais e institucionais propícias para acumular capital, conhecimentos e capacidade organizativa de recursos”.

Critérios meramente econômicos não seriam suficientes para explicar porque os quatro “gravetos” se empenharem tanto na reabertura da CCLB. Fatores de diversas ordens foram, portanto, determinantes para esta decisão, pois a reabertura de um parque industrial desse porte, constitui um meio de integrar a cadeia produtiva e gerar resultados econômicos e sociais e, assim, contribuir para o desenvolvimento de um Estado ainda marcado pelo atraso e pela exclusão.

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