Carrinho
0

Por WELLINGTON LACERDA S. DA SILVA*

Desde que escritores se predispuseram a escrever, a viagem no tempo é um tema fascinante da literatura de ficção e é uma metáfora poderosa acerca da divindade. Trata-se de um subgênero literário, dentro da ficção científica. A ideia, contudo, é bem antiga. O livro Mahabharata, escrito entre 400 a.C. e 400 d.C na Índia, narra como o rei Kakudmi experimentou a distorção temporal ao visitar o mundo celestial. Na obra, a visita a Brahma pelo rei dura por poucos minutos, mas, ao retornar à Terra, passaram-se milhões de anos para ele. Brahma não experimenta a criação da mesma forma que suas criaturas, ele vive em outra dimensão temporal.

De forma geral, a viagem no tempo como tema mítico, conta com o transporte mágico ou divino de algum personagem, que, após beber ou comer uma essência mágica, assim, o protagonista dorme no presente e acorda centenas de ano no futuro, para vivenciar uma utopia, ou, como o narrou escritor Mark Twain, com seu Ianque na Corte do Rei Arthur de 1889, para impressionar o passado.

A partir da revolução industrial, a fantasia da viagem no tempo através de máquinas e mecanismos ganha tração. O Relógio que Andava para Trás, de Edward Paige Mitchell em 1881 e o El Anacronópete, de Enrique Gaspar y Rimbau usaram máquinas: um relógio e uma nave voadora para viajar no tempo e observar o passado e o futuro. Em 1885, surge o grande clássico da literatura de viagens no tempo: A Máquina do Tempo, de H.G. Wells.

Com o advento da TV nos anos 30, o formato de ficção de episódios em série nos anos 50, a viagem no tempo ganhou obras clássicas como: O Túnel do Tempo, de Irwing Allen em 1966. Foi elevado o status do conceito de alguém estar perdido no tempo e na trama, dois cientistas principais no projeto são perdidos e ficam saltando para o passado ou o futuro. Em 1967, surge o Jornada nas Estrelas e, logo na primeira temporada, é apresentado o episódio brilhante A Cidade à Beira da Eternidade, no qual o genial Gene Roddenberry trata de uma máquina do tempo deixada num planeta distante à disposição de seus visitantes. E é impressionante a forma  como os protagonistas  experimentam a tragédia dos paradoxos temporais. Todas as séries de Jornada nas Estrelas mostraram algum episódio com viagens no tempo.

Mais recentemente, o cinema nos ofereceu filmes de grande qualidade, como as aventuras de Marty McFly e Doc Brown na inesquecível trilogia De Volta para o Futuro e sua máquina do tempo/carro exótico; também Primeiro Contato, com o elenco de Jornada nas Estrelas; A Nova Geração, que revisita as origens da Federação; o Reboot da série Jornada Nas Estrelas, que reescreveu a história da Federação por completo; o Primer, tido como um dos melhores filmes no tema paradoxos temporais; a série de TV Outlander; o britânico Questão de Tempo, com homens de uma certa família que espontaneamente viajam no tempo. A viagem no tempo da sua consciência no futuro para o seu corpo no passado teve XMen – Dias de um Futuro Esquecido; já em Odyssey 5 , um alienígena poderoso envia as consciências de um grupo de astronautas que viram a Terra explodir para seus corpos no passado recente, para que previnam uma catástrofe. Uma premissa similar ocorre em Travelers, onde um grupo de pessoas acaba tendo sua consciência substituída por consciências do futuro para prevenir uma catástrofe. Sem contar com Minory Report com Tom Cruise e mais recentemente, o Projeto Adam. Podemos explorar outras tantas obras facilmente em diversos temas do subgênero.

Por que a Viagem no Tempo fascina tanto a humanidade? Ela fascina porque representa o poder inalcançável de libertar o homem de sua história. O poder absoluto expresso pela viagem no tempo é o de corrigir os próprios erros. Quem de nós não os comete? Ao errarmos, quem de nós não se arrepende de tê-los cometido? Quem de nós não daria tudo para viajar ao passado por alguns segundos para corrigir nossos erros? Isaac Asimov trata do tema no inesquecível O Fim da Eternidade. Em Dias sem Fim, Arthur Clarke nos fala do cronovisor, que permite observar o passado. Seu advento causa a ruína da sociedade no livro.

Em Os Crononautas de Sedna, deste que vos escreve, lançamento da editora Futucacuca (www.futucacuca.com.br), a humanidade não está obcecada pelo passado, mas deseja ir para as estrelas. A humanidade quase falhou como espécie. A Estação, uma misteriosa e antiquíssima máquina do tempo é a chave para irmos para as estrelas e nos entendermos com o nosso destino. Jornada que  não se fará sem traumas profundos e dores imensas. O protagonista, doutor Jan Silva, um psicomentólogo (um misto de neurocientista, paleontólogo e psicólogo) vai cuidar dos crononautas e suas desventuras.

Seja como for, como causa de embaraços ou desembaraços, a viagem no tempo expõe os limites da humanidade,  do arbítrio e da vontade humana. E em épocas em que a própria realidade é questionada, as viagens no tempo exercem ainda mais fascinação como nunca antes.

WELLINGTON LACERDA é Professor Universitário, Arquiteto de Sistemas,  Doutorando em Mecatrônica pela Universidade Federal da Bahia,  e autor do livro OS CRONONAUTAS DE SEDNA.

 

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

CARRINHO
  • No products in the cart.
0