REFLEXÕES NA PAISAGEM DA JANELA.
PERSONAGENS
Jan Silva: Um jovem que divaga em pensamentos
Bete: Uma secretária que o chama para o trabalho.
Ele sorveu um generoso gole de café quente. Era uma manhã amena de outono. Jan estava parado, contemplando Salvador de sua janela. A linha litorânea descia em direção ao porto da cidade. Os prédios refletiam um sol matinal brilhante, mas não tão quente como nos dias de verão. Ao fundo dessa paisagem, ele podia ver o prédio do Espaçoporto, bem exótico e o da Administração da Frota, massivo, imponente. Milhares trabalhavam naqueles prédios símbolos da importância da cidade. Umas poucas pessoas passavam pela sua janela.
A lembrança de um livro antiquíssimo veio em sua mente. Naquele lugar havia um mercado e, nas encostas em frente a ele, as descrições falavam de um enorme elevador que conectava a praça do mercado com a administração da cidade. Jan havia visto as imagens. Nada daquilo existia mais. Primeiro, os governos belicosos haviam conseguido colonizar a Lua e Marte. Depois, os inúmeros abusos à natureza, na Terra, pariram a Grande Morte. Todos sabiam o que havia ocorrido. O vírus surgiu num mundo corrupto, sujo, supersticioso e caótico, com governos ditatoriais em toda parte e desorganização generalizada. Metade da população da Terra morreu. Os governos entraram em colapso. A civilização ruiu. Mas não foi isso que mudou aquela paisagem na janela. Após a doença, veio o Grande Frio. O clima do planeta entrou em colapso. Pouco antes do desastre, num último esforço de sobrevida, os organismos científicos que ainda funcionavam no mundo tomaram as rédeas da civilização, criaram abrigos subterrâneos da mesma dimensão das megalópoles da superfície. A humanidade fugiu do frio mortal para os abrigos. Em seguida, o gelo tomou o planeta e destruiu quase tudo. Jan sorveu um generoso gole de café, e comeu um biscoito.
Ninguém sabia quanto tempo se passou. As colônias da Lua e de Marte conseguiram descongelar a Terra. A civilização humana que emergiu das profundezas estava transformada pelos desastres. Havia um governo, que era um Conselho de Ciências, forjado na situação. Havia uma economia transformada, não mais baseada em acúmulo de riquezas, mas em compromisso social. Jan e todos os outros trabalhavam para a sociedade. Os profundos traumas ocorridos nessas verdadeiras catacumbas abissais impuseram uma verdade cruel: não fossem as colônias de Marte e Lua, não haveria uma humanidade agora. A única chance real de perpetuar a espécie estava nas estrelas. Na humanidade reformada, traumatizada, ressurgida das profundezas no século anterior, todos tinham essa mesma ideia. Eles precisavam alcançar as estrelas.. Não haveria uma terceira chance. Seu próprio tio havia saído em direção a outro sistema solar. Nunca mais o veria. Sentia uma falta imensa das conversas com ele. Jan sorveu mais um gole de café.
Bete, a secretária, interrompeu seus pensamentos. Tinha a cumprir metas da Agência de Fomento Civil, que pagara pelo consultório. Jan terminou o resto do café e foi trabalhar.
Wellington Lacerda*,
Graduado em Matemática , Especialista em Sistemas Distribuídos , Mestre e Doutorando em Mecatrônica. Foi consultor da FAO – Food and Agricultural Organization of the United Nations e do Instituto Recôncavo de Tecnologia de Salvador. Tem experiência em Sistemas Distribuídos e Computação Móvel, com patentes registradas epesquisa em confiabilidade de Sistemas Físicos-Digitais voltados para Agricultura Digital .Autor do livro OS CRONONAUTAS DE SEDNA.




